De forma análoga ao princípio da similitude terapêutica que a homeopatia emprega há mais de dois séculos, utilizando substâncias que causam determinados sintomas para tratar distúrbios semelhantes, recentemente, vem sendo sugerida pela farmacologia moderna uma nova estratégia de tratamento (‘paradoxical pharmacology’), propondo que “a exacerbação de uma doença pode fazer com que os mecanismos compensatórios e redundantes do organismo consigam uma resposta benéfica em longo prazo”, empregando os “efeitos paradoxais e bidirecionais das drogas” de forma terapêutica. Essa ‘farmacologia paradoxal’ tem sido utilizada no emprego dos betabloqueadores e dos bloqueadores dos canais de cálcio na insuficiência cardíaca congestiva (ICC), melhorando a contratilidade ventricular e diminuindo a mortalidade, além do emprego dos mesmos betabloqueadores no tratamento crônico da asma, promovendo broncodilatação e diminuição da inflamação nas vias respiratórias. No uso do efeito paradoxal antidiurético das tiazidas para tratar o diabetes insipidus, reduzindo a poliúria e aumentando a osmolalidade da urina, e na aplicação do trióxido de arsênico (As2O3), importante agente carcinogênico, como promissor agente antineoplásico (na leucemia promielocítica aguda). No emprego do efeito rebote dos contraceptivos orais como indutores da ovulação (gravidez) em mulheres portadoras de esterilidade funcional, e na utilização de drogas estimulantes do sistema nervoso central (anfetamina, metilfenidato, pemolina, etc.) no tratamento da hiperatividade, em vista de seu efeito bifásico. Dentre outros. De forma análoga ao método homeopático de tratamento, que utiliza ‘doses infinitesimais’ ou ‘ultradiluições’ dos medicamentos com o intuito de evitar uma possível agravação da doença na aplicação da similitude terapêutica, os proponentes desta proposta sugerem, como uma “boa regra geral”, iniciar o tratamento com “doses muito pequenas, aumentando-as gradativamente ao longo das semanas”.


Com o intuito de aproximar racionalidades distintas e ampliar o escopo da terapêutica pelos semelhantes, vimos propondo na última década uma sistematização para a utilização do efeito rebote curativo de 1.250 fármacos modernos, administrando-se aos indivíduos doentes, em doses infinitesimais (‘medicamento dinamizado’), drogas que causaram eventos adversos semelhantes (segundo a ‘totalidade de sintomas’), com o intuito de estimular uma reação paradoxal curativa do organismo. Para tornar esta proposta factível, foi elaborada uma Matéria Médica Homeopática dos Fármacos Modernos agrupando todos os efeitos primários ou patogenéticos (terapêuticos, adversos e colaterais) dos 1.250 fármacos modernos descritos em The United States Pharmacopeia Dispensing Information (USP DI), em conformidade com a distribuição dos capítulos da matéria médica homeopática tradicional. Para facilitar a ‘seleção do medicamento individualizado’ - premissa indispensável ao sucesso do tratamento homeopático - a segunda etapa envolveu a elaboração de um Repertório Homeopático dos Fármacos Modernos, onde os sintomas patogenéticos e seus medicamentos correspondentes foram organizados numa disposição anátomo-funcional em conformidade com o repertório homeopático clássico. Intitulado Novos Medicamentos Homeopáticos: uso dos fármacos modernos segundo o princípio da similitude, esse projeto de pesquisa está sistematizado e descrito em três livros eletrônicos (Fundamentação Científica do Princípio da Similitude na Farmacologia Moderna, Matéria Médica Homeopática dos Fármacos Modernos e Repertório Homeopático dos Fármacos Modernos) disponibilizados em um site bilíngue de livre acesso (http://www.newhomeopathicmedicines.com), permitindo que essa proposta seja analisada e aplicada por todos os colegas interessados.

 

 

Referências:

 

Teixeira MZ. Similia similibus curentur: o princípio de cura homeopático fundamentado na farmacologia moderna [Similia similibus curentur: the homeopathic healing principle based on modern pharmacology]. Revista de Medicina (São Paulo) 2013; 92(3): 183-203.