HOMEOPATIA

Histórico

Cristiano Frederico Samuel Hahnemann, "Pai da Homeopatia", nasceu na cidade de Meissen, Alemanha, no dia 10 de Abril de 1755.

Aos 20 anos de idade, em 1775, inicia seus estudos em Medicina. Hahnemann estudou medicina em Leipzig, mas como nesta Escola não havia ensino prático, Hahnemann foi terminar seus estudos num hospital em Viena. Em 1779 deu início ao exercício da medicina, após defender sua tese de doutorado: “Considerações etiológicas e terapêuticas sobre as afecções espasmódicas”.

O conhecimento e a análise de qualquer terapêutica médica não podem ser realizados de forma compreensiva sem uma visão do contexto médico de sua descoberta e aplicação. 

Sammuel Hahnemann

 

Como era a medicina na época em que se deu o surgimento da homeopatia?

 

Durante o século XVIII, o pensamento médico estava dividido entre as correntes dos mecanicistas (os materialistas) e a dos vitalistas. Os mecanicistas tinham como pressuposto fundamental a percepção do organismo humano como uma máquina. Os vitalistas, entretanto, entendiam a doença como sendo provocada por um desequilíbrio da energia vital e a definiam como aquilo que conferia vida aos organismos. Estas duas correntes de pensamento refletiam possivelmente tradições provenientes da medicina grega primitiva, através das históricas divergências entre as escolas médicas de Cnidos e Cós. Na época de Hahnemann existiam várias idéias fantasiosas sobre como se originam as doenças no interior dos indivíduos, que levaram a práticas médicas reconhecidamente nocivas e prejudiciais aos pacientes. Chamada de “medicina heróica”, adotava a estratégia de provocar a eliminação dos venenos internos através do aumento de diversas excreções orgânicas.A sangria feita através de sanguessugas, ventosas ou secção de veias, peça-chave do tratamento, teve seu esplendor no final do século XVIII até a segunda metade do século XIX, ensinada em muitas escolas médicas da Europa e em todas dos Estados Unidos. Seus praticantes eram chamados de vampiros. Mas não ficava só na sangria o tratamento da época. Prescreviam-se substâncias muito tóxicas, como o calomelano (cloreto de mercúrio) que atuariam como purgativos e eméticos, na falsa crença de que a diarréia e os vômitos eliminariam as impurezas internas. Além disso, era comum o uso de substâncias cáusticas e irritantes sobre a pele, provocando supurações, o que era mais uma vez interpretado como eliminação de impurezas internas, e portanto, altamente benéfico.

Ficou famosa a frase que se atribuía aos médicos da época, após o rotineiro falecimento dos pacientes atendidos: “ele morreu curado”. Os médicos julgavam-se autoridades máximas e não duvidavam de seus métodos mesmo diante de desastrosas evidências do dano que causavam. Nem o mais ilustre americano, George Washington, falecido em 1779, escapou desta falácia, acometido na manhã do dia 14 de dezembro por severa dor de garganta que lhe dificultava a respiração, seus médicos realizaram neste dia uma sangria de dois litros, acompanhada de irritantes sobre a pele e administração de calomelano. Às 22 horas do mesmo dia vinha a falecer, seguramente “curado” pela intervenção médica.

 

 

Neste ambiente iatrogênico e repleto de inúmeras explicações e especulações a respeito da doença e da vida, Hahnemann, entre 1780 e 1789, também prescrevia diarréicos e eméticos, como o mercúrio e o arsênico. Aos 34 anos, embora com diversas publicações sobre química, medicina preventiva e patologia, membro de muitas sociedades científicas médicas e dono de uma clientela que a cada dia crescia mais, Hahnemann via-se atormentado por escrúpulos e crises existenciais em função da observação dos efeitos que sua prática médica provocava. Decidiu abandonar a clínica em 1789, após nove anos de prática, para ele insatisfatória. Um dos seus escritos reflete a angústia e o desânimo que pousaram sobre ele naquela época: “converter me em assassino de meus irmãos era para mim um pensamento tão terrível que renunciei à prática para não me expor mais a continuar prejudicando”. Essa postura mostra sua sintonia com a máxima hipocrática: “primeiramente não prejudicar”. Hahnemann era um poliglota. Consta que conhecia grego, latim, hebraico, árabe, caldeu, inglês, francês, italiano e espanhol, além do alemão. O conhecimento desses idiomas foi decisivo em seu futuro, pois abandonando a prática médica, começa a sobreviver realizando traduções de obras científicas, especialmente nas áreas de química e medicina, retomando estudos de antigos mestres como Hipócrates, Paracelsus, Van Helmont, Sydenhan, Boerhaave, Stahl e Haller.

Proveniente de uma família pobre e humilde, Hahnemann casou-se com a filha de um farmacêutico, o que o fez aprender e dominar as técnicas farmacêuticas da época. De acordo com a descrição de seus biógrafos e a análise dos seus escritos, era uma personalidade prodigiosa, dotada de uma capacidade muito acurada de observação e de um senso crítico muito pronunciado, tendo inclusive escrito um estudo sobre as qualidades necessárias ao bom observador em medicina. Descrito por alguns como vaidoso e autoritário, era extremamente obstinado e decidido naquilo em que acreditava. Como dominava vários idiomas, lia muitas revistas médicas de sua época, ampliando assim o seu campo de conhecimento médico.

Foi quando trabalhava na tradução da Matéria Médica de Cullen, em 1790, que um fato descrito por aquele autor chamou sua atenção. A Cinchona officinalis (quinina ou quina) proveniente do Peru, era usada na Europa, para o tratamento do paludismo (malária). Segundo explicações do autor do livro, a quina era um remédio eficaz graças ao efeito tônico que exerce no estomago, produzindo uma substância contrária à febre. Não concordando com essa explicação, decidiu realizar um experimento em si mesmo, ingerindo diariamente quatro dracmas de quina, como recomendado na sua época. Observando atentamente todas as modificações que se seguiram após a ingestão da droga, concluiu que os sintomas resultantes da intoxicação a que se submetera eram bastante semelhantes aos das crises febris da malária, tais como esfriamento das extremidades, rubor facial, sonolência, prostração, pulsações na cabeça, para cujo tratamento a quina era o de eleição. Seguindo rigorosamente os conselhos do grande fisiologista e botânico Haller, que já havia preconizado em livro traduzido por Hahnemann, a necessidade de estudar a ação de cada medicamento no homem aparentemente são antes de ser prescrito ao doente, repetiu várias vezes o experimento com a quina, estendendo-o depois a outras substâncias como a beladona, o mercúrio, a digital, o ópio, o arsênico e mais treze medicamentos de uso corrente na época.

Depois de seis anos de constante experimentação, em si mesmo e nos seus familiares, Hahnemann publica em 1796 o “Ensaio sobre um novo princípio para descobrir as virtudes Curativas das substâncias medicinais, seguida de alguns comentários a respeito dos princípios aceitos na época atual”, na mais importante revista médica alemã de sua época, o Jornal de Hufeland. O ano de 1796 marca, portanto, o nascimento da homeopatia, embora Hahnemann só viesse a chamar o seu sistema de tratamento médico desta forma anos mais tarde, para diferenciá-lo da prática medicamentosa abusiva, agressiva e pouco eficaz do seu tempo, a que denominou de alopatia. A partir de 1801 Hahnemann começa a usar medicamentos dinamizados (técnica própria da homeopatia que visa despertar a força medicamentosa latente na substância e que consiste em submeter a droga a diluições e sucussões sucessivas).

Retomou a prática médica, já como homeopata, em 1805, ano em que publicou “Esculápio na Balança” e “Medicina da Experiência”.Em 1810 publicou a primeira edição do Organon, que intitulou de “Organon da Medicina Racional”. O Organon da Arte de Curar é o livro onde expões as bases filosóficas, teóricas e metodológicas da homeopatia, e que sofreu sucessivas edições, num total de seis, sempre com modificações e acréscimos a partir da aprendizagem obtida através de vivências e experiências novas. De 1811 a 1821 publica suas experimentações com 67 substâncias diferentes, em seis volumes que edita sob o título de “Matéria Médica Pura”, e em 1828, o “Tratado das doenças crônicas”. A história da medicina demonstra a resistência à mudança provocada por inúmeras descobertas importantes. Com Hahnemann não poderia ser diferente, sendo ele acusado de dogmático, de estar imbuído de um fanatismo religioso na defesa de suas idéias e de distorcer intencionalmente os fatos de acordo com idéias preconcebidas, o que lhe rendia críticas e ridicularizações dos colegas médicos. Justo Hahnemann, que no primeiro parágrafo do Organon, criticava os médicos que perdiam tempo em sonhos e hipóteses sobre a natureza íntima dos processos vitais, sem se preocuparem em aliviar e curar realmente, advertindo que “a única e suprema missão do médico é a de restabelecer a saúde, isto é, curar”. Ou que escrevia, em 1818, que “ninguém indagou da experiência, único método que pode fornecer esclarecimentos numa ciência essencialmente experimental como é a medicina, porque era mais cômodo contentar-se com afirmações; assim é que se deu lugar de honra aos mais temerários aforismos, às menos consistentes teorias e hipóteses, ao invés da verdade baseada nos fatos”. Aos 80 anos, quando se transferiu da Alemanha para a França, os médicos franceses quiseram impedi-lo de exercer a medicina. Guizot, ministro de Luís Felipe, escreveu então à Academia de Medicina da França “Hahnemann é um sábio de grande mérito. A ciência deve ser para todos. Se a homeopatia é uma quimera ou um método sem valor próprio, ela cairá por si mesma. Se é, ao contrário, um progresso, expandir-se-á apesar de todas as medidas contrárias, e a Academia deve deseja-lo antes de qualquer outra, ela que tem por missão impulsionar a ciência e encorajar as descobertas”. Em 1843, Hahnemann morre, aos 88 anos, sem ver a sexta e última edição do Organon, que vai para o prelo post mortem, em 1921. Em sua obra, Hahnemann manteve-se fiel ao vitalismo, buscando em Bartez a visão ternária do homem: corpo, alma e força virtal. No parágrafo 9 do Organon diz:

                                     

 “No estado de saúde, a força vital (autocrática) que anima dinamicamente o corpo material (organismo), governa com poder ilimitado e conserva todas as partes do organismo em admirável e harmoniosa operação vital, tanto com respeito às sensações como às funções, de modo que o espírito dotado de razão que reside em nós pode empregar livremente este instrumento vivo e sadio para os mais altos fins de nossa existência”. (§ 9).       

Seus discípulos alemães propagaram a homeopatia para a América e a Inglaterra. Na França, formou discípulos que a propagaram para os países latinos. Nos EUA Hering fundou em 1833 a Academia Americana de Homeopatia, e um de seus discípulos, James Tyler Kent produziu uma enorme obra homeopática, filosófica e prática, em sua Matéria Médica e Repertório. Nos EUA a homeopatia teve seu apogeu no final da Primeira Grande Guerra e quase desapareceu após a Segunda Grande Guerra, para renascer na década de 70 com o movimento naturalista. Na Inglaterra a pratica hospitalar é exercida livremente. A família real britânica sempre foi e continua sendo assistida por famosos homeopatas. Na Índia o exercício da Homeopatia é permitido também ao pessoal para-médico. A literatura lá é muito desenvolvida e estimulada. 

 

FERNANDES, Fernanda F. C. A pesquisa frente à comprovação do medicamento homeopático. 2006. 38p. Dissertação (Especialização em Farmácia Magistral Alopática e Homeopática) – Universidade do Sul de Santa Catarina, Tubarão, 2006.

FONTES, O. L. Além dos sintomas: superando o paradigma saúde e doença. Piracicaba: UNIMEP, 1995. 86p.

__________. Farmácia homeopática: teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Manole, 2005. 354p.

HAHNEMANN, S. Organon da arte de curar. 6. ed. São Paulo: Robe, 1996.

LYRIO, Carlos. Quais os fundamentos dos Nosódios vivos? Há comprovação científica? Qual o valor da prova?  In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HOMEOPATIA. 2008. Palestra. Disponível em: . Acesso em 18 fev 2010.